Chamo-me Dau Phu. Nasci em 1987 numa cidade costeira do Vietname, mas cresci entre Singapura e vários outros lugares onde a minha família se mudou por causa do trabalho. Desde cedo, aprendi que a vida era algo que se planeava, se media e se otimizava. O sucesso media-se em horas trabalhadas, em objetivos alcançados, em coisas que se podiam mostrar.

Durante quase quinze anos, trabalhei em tecnologia. Comecei como programador, passei por gestão de projetos, depois por estratégia de produto. Vivi em Singapura, em Londres, em Berlim. As cidades eram diferentes, mas o ritmo era sempre o mesmo: reuniões, prazos, notificações, noites a trabalhar para compensar o que não tinha sido feito durante o dia. Achava que era assim que se vivia quando se queria fazer alguma coisa de importante.

"O que me trouxe até aqui não foi uma crise. Foi uma sensação lenta de que estava a viver a vida de outra pessoa."

A rutura que não foi dramática

Não houve um momento de rutura dramática. Não houve um burnout clássico com colapso. Foi mais uma sensação crescente de que o que estava a fazer não fazia sentido para mim. Acordava, trabalhava, dormia, e repetia. Os fins de semana eram para recuperar do que a semana tinha tirado. As férias eram para esquecer o trabalho durante duas semanas e depois voltar a ele.

Em 2023, depois de um projeto particularmente exigente que me deixou exausto durante meses, decidi fazer algo diferente. Não sabia bem o quê. Apenas sabia que precisava de parar. Vendi quase tudo o que tinha, guardei o resto numa caixa, e comprei um bilhete de avião para Portugal. Não conhecia ninguém aqui. Não tinha plano. Só sabia que precisava de um lugar onde o ritmo fosse mais lento.

Os primeiros meses

Os primeiros meses foram estranhos. Tinha tempo, mas não sabia o que fazer com ele. Acordava e não tinha reuniões. Não tinha e-mails urgentes. Não tinha ninguém à espera de uma resposta minha. O silêncio era ensurdecedor.

Comecei a caminhar. Muito. Saía de casa de manhã e voltava quando o sol já estava a baixar. Não levava mapa. Não levava objetivo. Apenas andava. Aos poucos, comecei a reconhecer as mesmas ruas, as mesmas casas, as mesmas pessoas que saíam ao mesmo tempo todos os dias. O lugar começou a tornar-se familiar.

Também comecei a cozinhar. Não porque quisesse aprender a cozinhar bem, mas porque precisava de fazer alguma coisa com as mãos. Comprava ingredientes no mercado, tentava replicar pratos que tinha comido em restaurantes, falhava muitas vezes. Mas o processo de cortar, misturar, esperar, provar, era algo que me ancorava ao presente de uma forma que o trabalho nunca tinha feito.

O caderno que se tornou diário

Um dia, numa papelaria pequena, comprei um caderno. Não tinha intenção de o usar para nada em particular. Mas comecei a escrever nele todas as manhãs. Não eram diários de gratidão nem planos de vida. Eram apenas anotações sobre o que tinha visto no dia anterior, o que tinha cozinhado, como a luz entrava pela janela a uma certa hora.

Ao fim de alguns meses, tinha quase duzentas páginas cheias. Quando as reli, percebi que estava a construir uma espécie de mapa do meu novo ritmo. Não era um mapa de conquistas. Era um mapa de momentos que tinham significado para mim, mesmo que não tivessem significado para mais ninguém.

Decidi que queria partilhar algumas dessas anotações. Não porque achasse que tinham valor universal, mas porque talvez houvesse outras pessoas que também estavam à procura de um ritmo mais humano. Criei este website como uma extensão do caderno. As entradas que aqui estão são versões mais trabalhadas das minhas anotações originais.

O que aprendi até agora

Não tenho grandes lições para partilhar. O que aprendi é pequeno e pessoal. Aprendi que o meu corpo tem ritmos que não coincidem com os ritmos que a sociedade espera de mim. Aprendi que cozinhar com o que está disponível é mais satisfatório do que seguir receitas perfeitas. Aprendi que caminhar sem destino é uma forma de ver coisas que de outra forma passariam despercebidas.

Aprendi também que não preciso de justificar o meu tempo. Que posso sentar-me num banco durante uma hora sem estar a fazer nada "útil". Que o meu valor não depende do que produzo num dia.

Este diário é a minha forma de lembrar isso a mim próprio. E talvez, se ressoar com alguém que está a ler, seja também uma pequena recordação de que há outras formas de viver.

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