Durante muito tempo, caminhar foi algo que eu fazia para chegar a algum lado. Do metro para o escritório, do escritório para casa, da casa para o supermercado. Os passos eram sempre um meio para um fim. O corpo movia-se, mas a atenção estava no destino ou no telemóvel.

Quando comecei a viver aqui, percebi que havia caminhos à minha porta que não levavam a lugar nenhum em particular. Pequenos trilhos entre campos, estradas de terra que serpenteiam entre casas antigas, caminhos ao longo do rio que desaparecem depois de uma curva. Comecei a percorrê-los sem saber onde iam dar.

Deixar o corpo decidir

Não saio com um plano. Não escolho um destino. Ponho os sapatos, fecho a porta e começo a andar na direção que me parece mais interessante naquele momento. Por vezes, sigo o mesmo caminho várias vezes seguidas. Outras vezes, escolho um que nunca explorei.

O que acontece é que o ritmo do corpo muda quando não há um objetivo. Os passos ficam mais lentos. Os olhos sobem das botas para o que está ao redor. Reparo nas pedras do muro, nas flores que crescem entre elas, no pássaro que salta de ramo em ramo. Coisas que nunca via quando caminhava com pressa.

Numa dessas caminhadas, descobri uma pequena capela abandonada que não aparece em nenhum mapa. Fiquei lá quase uma hora, apenas a olhar para as paredes rachadas e para a luz que entrava pelas janelas sem vidros. Não tirei fotografias. Não pesquisei a história do lugar. Apenas estive lá.

Quando o corpo caminha sem destino, a atenção tem espaço para se espalhar pelo que realmente está à nossa frente.

O que se perde quando vamos sempre a algum lado

Percebi que, quando caminho com um objetivo, perco a maior parte do que está entre o ponto A e o ponto B. O caminho torna-se um espaço vazio que preciso de atravessar o mais rápido possível. Quando não há objetivo, o caminho torna-se o lugar onde estou.

Isto não significa que nunca tenha pressa ou que nunca vá a algum lado com intenção. Significa que reservei um tempo para caminhar sem que isso sirva para nada em particular. É um tempo que não produz nada, não resolve nada, não melhora nada. E talvez por isso seja importante.

Não é sobre natureza nem sobre fitness

Não falo disto como uma forma de "ligar com a natureza" nem como exercício físico. Falo como uma forma de ver o lugar onde vivo. O mesmo caminho que percorro a pé parece completamente diferente quando passo de carro. As distâncias mudam. Os detalhes desaparecem. O corpo deixa de estar em contacto com o chão.

Quando caminho sem destino, o meu sentido de escala muda. Uma curva que parece pequena no mapa torna-se uma longa sequência de descobertas quando a percorro a pé. Uma casa que parece igual às outras revela, ao passar devagar, um jardim cheio de vasos coloridos ou uma porta pintada à mão.

Se tiver vontade, experimente. Escolha um dia em que não precise de chegar a lado nenhum. Saia de casa e comece a andar na direção que lhe parecer mais interessante. Não leve mapa nem telemóvel com internet. Deixe que o corpo decida quando virar, quando parar, quando voltar. Veja o que repara quando não está a ir para nenhum lado em particular.