Durante os primeiros meses aqui, a casa parecia-me temporária. Como se fosse um lugar onde eu estava de passagem, não um lugar onde vivia de verdade. Os móveis eram poucos, as paredes estavam nuas, e eu não sentia vontade de me instalar. Tudo parecia provisório.

Um dia, olhei para um canto da sala que ficava perto da janela grande. Era um espaço vazio, com uma cadeira velha que tinha sido deixada pelos anteriores inquilinos. Decidi que aquele canto ia ser meu. Não para decorar, mas para ter um lugar onde pudesse estar sem ter de fazer nada em particular.

O que já estava lá

Não comprei nada de especial. Usei o que tinha. A cadeira velha ganhou uma almofada que trouxe de uma viagem. Ao lado, pus uma pequena mesa de madeira que encontrei numa feira. Em cima da mesa, uma lâmpada de leitura que já tinha e um vaso com uma planta que alguém me deu. Na parede, pendurei um pedaço de tecido que tinha comprado num mercado porque gostei da cor.

O que tornou o canto especial não foi o que acrescentei. Foi o facto de ter decidido que aquele espaço tinha um propósito: ser um lugar onde eu podia sentar-me no fim do dia e não precisar de fazer mais nada.

Comecei a ir lá todas as noites, quase sempre à mesma hora, quando a luz já estava a mudar. Às vezes levava um livro. Às vezes levava o caderno. Às vezes não levava nada. O importante era que havia um lugar para onde o corpo sabia que podia ir quando o dia estava a acabar.

Um cantinho não precisa de ser bonito para os outros. Precisa apenas de ser um lugar onde o corpo se lembra que pode descansar.

O que mudou depois

Percebi que ter este cantinho alterou a forma como terminava os dias. Antes, o fim da tarde era uma espécie de limbo: já não estava a trabalhar, mas ainda não tinha começado a "descontrair". Andava pela casa, verificava o telemóvel, abria e fechava o frigorífico sem fome.

Quando passei a ter um lugar para ir, o fim do dia ganhou uma forma. Sentava-me, ficava ali durante vinte minutos ou uma hora, e o corpo percebia que o dia de trabalho tinha terminado. Não era uma decisão consciente. Era o corpo a reconhecer o lugar.

Com o tempo, o cantinho tornou-se também um lugar onde guardo coisas que me fazem bem: uma caneta que gosto de usar, um pequeno livro de fotografias, uma pedra que trouxe de uma caminhada. Coisas pequenas que não têm valor para mais ninguém, mas que me lembram que este é o meu espaço.

Não é sobre perfeição

O cantinho não é bonito segundo os padrões de decoração. A cadeira é velha, o tecido na parede está um pouco torto, a planta por vezes tem folhas secas porque me esqueço de regar. Mas é meu. E quando me sento ali, sinto que estou em casa de uma forma que não sentia antes.

Não acho que toda a gente precise de ter um cantinho especial. Mas acho que toda a gente precisa de um lugar na casa onde possa estar sem ter de justificar a sua presença. Um lugar onde o corpo possa parar sem que a mente exija que faça alguma coisa.

Se tiver vontade, experimente. Escolha um canto que já existe na sua casa. Não precisa de comprar nada. Talvez apenas arrume o que está lá a mais, coloque uma coisa que gosta de olhar, e comece a ir lá de vez em quando. Veja se o corpo reconhece que aquele espaço é diferente dos outros.